Entrevistas
Saiba como se proteger da gripe H1N1
A H1N1, que rapidamente se tornou uma das enfermidades mais faladas dos últimos tempos, vem despertando o medo e a curiosidade das pessoas em todo o mundo. Causada pelo vírus Influenza A, a doença é transmitida de pessoa para pessoa e tem sintomas semelhantes aos da gripe comum, como febre superior a 38ºC, tosse, dor de cabeça intensa, dores musculares e nas articulações, irritação dos olhos e fluxo nasal.
A nova gripe foi oficialmente responsável por quase 400 mortes em todo o Brasil até o mês de agosto, de acordo com dados divulgados pelo Ministério da Saúde. Deste total, 46 eram grávidas. No entanto, os responsáveis pelos órgãos de regulamentação da Saúde Pública são enfáticos ao afirmar que não há motivo para pânico.
Nesta entrevista, feita especialmente para o site do Conselho Regional de Fonoaudiologia – CRFa 6ª Região, a infectologista Lucinéia Carvalhais, médica formada pela UFMG e com atuação no Hospital Eduardo de Menezes/Rede Fhemig e professora do curso de Medicina do Centro Universitário de Belo Horizonte - UNI-BH, localizados em Belo Horizonte (MG), dá mais informações sobre a doença e fala como os fonoaudiólogos podem se proteger do contágio.
Quais são as diferenças entre o vírus da H1N1 e o vírus normal da gripe?
Sabe-se hoje que os dois vírus provocam o mesmo tipo de doença, e o receio anterior de que a H1N1 fosse mais grave não foi confirmado. A gripe suína, como é conhecida, atinge pessoas que já se enquadravam no grupo de risco da gripe tradicional - idosos, crianças abaixo de dois anos, diabéticos, pessoas com problemas cardíacos, renais, que fazem uso de imunossupressores ou estão passando por tratamento de radio ou quimioterapia – e grávidas, que passaram também a fazer parte deste grupo. O grande problema do novo vírus está relacionado ao seu potencial de complicação. É normal que em determinada época do ano haja um aumento de casos de gripe. Os vírus chamados de Influenza A são os causadores das gripes já conhecidas, com casos que se concentram no inverno. O H1N1 é um vírus Influenza A que apresentou uma mutação para a qual o nosso organismo ainda não tem defesa. Este ano, o H1N1 foi responsável por aumentar o número de casos, mas a proporção de casos graves semelhantes aos da gripe comum foi mantido.
Como é o desenvolvimento do vírus no organismo?
Mais uma vez, ele apresenta semelhanças com o vírus tradicional, pois ambos se desenvolvem da mesma forma. Observar os sintomas, portanto, é muito importante para facilitar sua identificação e distinguir a gripe como a conhecemos e a gripe suína de um resfriado comum. A pessoa que contraiu o vírus H1N1 deve apresentar febre acima de 38º C e tosse, associadas a outros sintomas, como dor muscular, secreção nasal, irritação muscular, olhos lacrimejantes e dor de garganta. É importante destacar que para entrar no grupo de suspeita da gripe, a pessoa tem, obrigatoriamente, que apresentar febre.
O que as pessoas podem fazer para evitar o contágio?
A forma de contágio do vírus H1N1 também é igual à gripe comum. O vírus não caminha no ar, não tem asas. Ele está presente em pequenas gotículas, espelidas durante a fala, em tosses ou espirros e não tem capacidade para ultrapassar um metro de distância. Isso quer dizer, portanto, que eu posso estar no mesmo ambiente que uma pessoa contaminada, caso seja mantida uma distância segura, mas preciso ter cuidado se, por exemplo, a pessoa espirrou em cima de uma mesa. Como as gotículas vão estar presentes, devo ficar atento para não passar a mão nesse local e, em um momento de distração, levar à boca, ao nariz ou aos olhos, ou se alimentar sem lavar antes as mãos.
No caso dos fonoaudiólogos, que têm um contato muito próximo com os pacientes, qual deve ser o procedimento?
Como os fonoaudiólogos precisam enxergar bem os movimentos que os paciente fazem com a boca e vice-versa, o uso de máscaras se torna inviável, então deve ser respeitada a distância mínima de um metro durante o tratamento. Na impossibilidade disto, os atendimentos devem ser cancelados, mas apenas caso o paciente apresente algum sintoma respiratório agudo. E aqui cabe uma observação: quando falo em sintoma respiratório agudo, não me refiro a problemas como asma, bronquite etc, e sim a indicadores até então nunca apresentados pelo paciente, como febre ou tosse e sintomas de infecção respiratória. É importante que o profissional também alerte o paciente para a importância do cancelamento da consulta, caso os sintomas da gripe sejam detectados. Além desses cuidados, deve-se lembrar de higienizar as mãos e o ambiente de forma geral. As profissionais que estiverem grávidas devem ser afastadas do atendimento durante a gestação. Isso não quer dizer deixar de trabalhar, e sim ser remajenada para outra área no período.
Caso seja confirmada a doença, o que deve ser feito?
A primeira coisa é se afastar do trabalho e da escola e, quando for necessário sair de casa para buscar atendimento, o paciente deverá usar a mascara cirúrgica. Importante frisar que todas as unidades de saúde, dos convênios ou do SUS, estão capacitadas para prestar atendimento ao doente. Os casos mais graves serão encaminhados para os setores especializados. Os demais receberão hidratação e orientações sobre os cuidados com a doença.
Qual é o período de transmissão da doença?
Iniciados os sintomas, os adultos podem transmitir o vírus por até sete dias. Já as crianças devem ser afastadas do convívio por 14 dias, porque nelas a duração da transmissibilidade do vírus é maior.
Quais são as dúvidas mais comuns das pessoas em relação ao vírus H1N1?
A maior parte das dúvidas está relacionada ao índice de mortalidade da doença. Sinto que as pessoas estão muito alarmadas, pensando que, caso contraiam o vírus, a situação será grave. Nem sempre é assim, e, na maioria dos casos, não será preciso nem receitar medicação. Ainda existem muitas dúvidas também sobre como o vírus é transmitido, se é permitido ficar no mesmo ambiente que uma pessoa que esteja contaminada ou usando a máscara. A desinformação e a sensação de pânico são os dois maiores problemas a serem combatidos agora. Outra dúvida comum é sobre o comportamento que as gestantes devem ter. É preciso esclarecer que nem todas devem parar de trabalhar. Caso o ambiente profissional traga algum risco de contágio, ela deve ser remanejada para outra função ou local, mas não é preciso interromper as atividades por causa disso. Outra situação que vale a pena ser citada é que às vezes as pessoas se privam do ambiente escolar e de trabalho, mas não deixam de frequentar locais com aglomerações, como festas e boates, reproduzindo no lazer as mesmas situações de risco encontradas de trabalho. O cuidado para evitar o contágio deve ser tomado de uma forma geral, principalmente em locais fechados e com muita proximidade de pessoas.
Qual é sua avaliação sobre as medidas que têm sido tomadas pelo Governo a fim de conter a gripe?
O Brasil é conhecido por ter algumas coisas muito boas, e o programa de imunização desenvolvido aqui é um deles, assim como o programa de controle da AIDS, dentre outros. Dessa vez, no combate à gripe suína, a conduta também tem sido muito acertada. Existem alguns erros, como acontece em um processo de aprendizado, mas acredito que estamos caminhando de uma forma muito responsável.
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